Nem todo câncer de reto precisa de bolsa — e, quando precisa, na maioria das vezes ela é temporária. O que decide não é a técnica cirúrgica nem a tecnologia: é a altura do tumor em relação ao ânus e a sua relação com o esfíncter, o músculo que dá continência. Tumor que invade o esfíncter exige bolsa definitiva; tumor da parte média ou baixa operado após radioterapia costuma exigir uma bolsa de proteção, revertida meses depois; tumor mais alto, em geral, não precisa de bolsa nenhuma.
Primeiro, as palavras
Estoma é a abertura feita na parede do abdome por onde o intestino passa a eliminar as fezes, coletadas numa bolsa aderida à pele — "bolsa" é como todo mundo chama. No câncer de reto importam dois tipos: a ileostomia, feita com o intestino delgado, do lado direito, quase sempre temporária, para proteger a emenda enquanto ela cicatriza; e a colostomia, feita com o intestino grosso, do lado esquerdo, que é a bolsa que fica definitiva quando o reto e o ânus precisam ser retirados por inteiro.
O que decide: a altura do tumor e o esfíncter
A pergunta que define a cirurgia é: dá para retirar o tumor com margem de segurança e ainda preservar o esfíncter funcionando? A resposta vem da ressonância da pelve, do exame físico e, quando houve quimioterapia e radioterapia antes, da resposta do tumor a esse tratamento.
| Situação | Cirurgia habitual | Bolsa? |
|---|---|---|
| Tumor da parte alta do reto | Retira-se o segmento doente e emenda-se o intestino ao reto restante | Em geral, não |
| Tumor da parte média ou baixa, com esfíncter livre, sobretudo após radioterapia | Retira-se o reto com a gordura ao redor e emenda-se o intestino muito perto do ânus | Bolsa temporária de proteção — o cenário mais comum |
| Tumor muito baixo, encostado no esfíncter sem invadi-lo | Retira-se parte do esfíncter interno e preserva-se o externo, com emenda no próprio canal anal | Bolsa temporária; a função depois exige adaptação |
| Tumor que invade o esfíncter, ou pessoa sem continência prévia | Retirada do reto e do ânus, com fechamento do períneo | Bolsa definitiva |
Há exceções que fogem ao mapa: uma queda grave de pressão durante a cirurgia, uma complicação no meio da operação ou um intestino que já funcionava mal antes podem levar o cirurgião a optar por uma bolsa em vez de uma emenda — porque uma emenda que não funciona bem é pior do que uma bolsa que funciona.
A técnica cirúrgica muda a chance de bolsa?
Em regra, não. A cirurgia robótica pode facilitar a operação em pelves estreitas e em tumores baixos, mas nenhuma tecnologia muda a distância entre o tumor e o ânus, nem faz um tumor que invade o esfíncter deixar de invadi-lo. Quem diz que "com o robô não fica bolsa" está vendendo, não informando.
Perguntas frequentes
Toda cirurgia de câncer de reto deixa bolsa?
Por que existe a bolsa temporária?
Quanto tempo fica a bolsa temporária?
A cirurgia de reversão é grande?
Como é viver com a bolsa temporária?
Quando a bolsa é definitiva — e como é viver com ela?
Posso trabalhar, viajar e ter vida sexual com a bolsa?
Se o tumor sumiu com a quimio e a radio, ainda preciso operar?
A cirurgia robótica evita a bolsa?
O que devo perguntar ao cirurgião antes da cirurgia?
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Referências
- You YN, Hardiman KM, Bafford A, et al. The American Society of Colon and Rectal Surgeons Clinical Practice Guidelines for the Management of Rectal Cancer. Dis Colon Rectum. 2020;63(9):1191-1222. doi: 10.1097/DCR.0000000000001762
- Hendren S, Hammond K, Glasgow SC, et al. Clinical Practice Guidelines for Ostomy Surgery. Dis Colon Rectum. 2015;58(4):375-387. doi: 10.1097/DCR.0000000000000347
- van der Valk MJM, Hilling DE, Bastiaannet E, et al. Long-term outcomes of clinical complete responders after neoadjuvant treatment for rectal cancer in the International Watch & Wait Database (IWWD). Lancet. 2018;391(10139):2537-2545. doi: 10.1016/S0140-6736(18)31078-X
- Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP). Orientações ao paciente ostomizado. Disponível em: sbcp.org.br.